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a prova (6 anos antes)

6 anos antes



Este era um dia muito importante, Angela havia se preparado para isso. Havia estudado, estava pronta intelectualmente, mas não emocionalmente. 


Esperar naquela sala junto com outros trinta candidatos não parecia nem de longe o que ela chamava de manhã de sábado perfeita. Aliás, ela já não sabia o que era uma manhã de sábado perfeita desde que começara a trabalhar com seu pai no comércio da família.


No fundo o que ela queria mesmo era uma desculpa para passar o maior tempo fora de casa. Assim, estudar e trabalhar era o primeiro plano que tinha em mente, até conseguir juntar uma grana e sair o mais rápido possível daquele inferno travestido de família.


O relógio barato na parede branca mostrava que faltavam apenas 15 minutos para que a prova começasse. Aquele objeto não fazia jus ao ambiente aparentemente caro em que todos aqueles candidatos estavam. Na hora de subir até o terceiro andar, onde se encontrava a sala designada, passaram por um saguão espelhado com catracas polidas e elevadores de limpeza impecáveis. 


Angela estava tão distraída tentando afastar o nervosismo devaneando com a falta de coerência entre os objetos caros que se viam por todos os cantos da sala e aquele relógio barato na parede que não percebeu quando o aplicador da prova entrou na sala.


"Bom dia a todos, meu nome é André. Vocês terão exatamente 3 horas para finalizar esta prova. Entreguem a prova e o gabarito quando saírem. Os resultados sairão na próxima quarta-feira" - começou. " Apenas lápis e canetas em cima das mesas, por favor. Não é permitido falar ou utilizar qualquer aparelho eletrônico durante a realização da prova. Os que forem pegos transgredindo qualquer uma dessas duas regras serão convidados a sair e terão suas provas anuladas", continuou o professor. Tinha a voz tom firme, mas com um certo tédio de quem já repetiu estas mesmas instruções uma dezena de vezes.


O professor tinha estatura mediana e era franzino. Tinha o topo da cabeça calva e vestia camisa xadrez e calças pretas. Era do tipo de professor que os alunos admiram por ser rígido e gente boa na proporção adequada.


Angela pegou a prova torcendo para que as questões não fossem longas e entediantes, pois tinha uma enorme facilidade em perder a concentração. Bastava uma mosquinha passar voando em sua frente e adeus concentração.


"Ok, podem virar"


Naquele instante houve barulho de várias folhas virando ao mesmo tempo.


"Vocês podem preencher o espaço para o nome e os outros dados que pedimos. Há instruções para quem ficou com dúvida a respeito de como procederá a entrega do resultado e o preenchimento do gabarito. Vocês poderão utilizar canetas preta ou azul para responder as questões, mas ao chegarem no gabarito, utilizem apenas a caneta azul. Mais de uma bolinha preenchida na mesma linha irá anular a sua resposta. É isso, boa prova a todos, podem começar"


Várias cabeças abaixaram e o barulho de papel sendo dobrado encheu o ar.


Angela estava suando de nervosismo. Esta era uma das coisas mais importantes que havia feito em todos os seus 18 anos de vida.


Após ter terminado a prova, saiu o mais rápido que pôde do campus, estava completamente desesperada por um cigarro. Aprendeu a fumar aos 16 porque sua irmã mais velha a obrigava a acender cigarros e levá-los até ela. Depois de fazer tantas e tantas vezes resolveu se entregar a esta sua sina e tomar gosto já que era impossível evitar o inevitável.


Cada tragada era um alívio para Angie. Seus pensamentos vagavam. Em sua mente revisava a sua lista se preparando para o próximo objetivo.